| Campos dos Goytacazes, 10 2010 - sexta-feira |
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Há sete anos...
Em tempos de pouco encanto com a política e a ação coletiva, seria possível imaginar um movimento capaz de superar interesses particulares e se mover em torno de uma causa “nobre” e comum? Nesta quinta-feira, 23 de outubro de 2008, a Uenf faz memória de um destes raros episódios: o vitorioso desfecho da luta pela sua autonomia administrativa. Há exatos sete anos, após um movimento unificado de professores, estudantes e técnicos — com a solidariedade de importantes setores da opinião pública de Campos (RJ) —, foi sancionada a lei que desvinculou a Uenf de sua antiga mantenedora, a Fenorte. Naqueles intensos dias de 2001, o segundo semestre letivo na Uenf não começou até que a Assembléia Legislativa aprovasse e o então governador do Estado, Anthony Garotinho, sancionasse a Lei Complementar número 99. Uma longa greve conjunta, deflagrada em agosto, tinha também pautas corporativas. Mas o ingrediente que realmente uniu os diferentes segmentos foi a causa da autonomia. Uma Comissão Paritária Governo-Uenf, criada para discutir o novo formato do antigo Complexo Universitário, já tinha concluído seus trabalhos desde maio de 2001, mas as mudanças previstas demoravam a se concretizar. Com a greve unificada que impediu o início do segundo semestre letivo, o conflito se acentuou, e as condições de negociação com o governo se deterioraram. No início de agosto, o governo anunciou o propósito de cortar o pagamento do pessoal que aderisse ao movimento, o que inflamou a solidariedade entre os seus membros. Para o sociólogo George Gomes Coutinho, à época estudante de graduação em Ciências Sociais na Uenf, a luta pela autonomia foi um movimento peculiar: o clima contestatório que visava instituir real poder ao reitor eleito democraticamente pela comunidade universitária uniu grupos e segmentos que normalmente se encontrariam distanciados. Algo semelhante surge da análise do professor Sérgio de Azevedo, titular da área de Ciência Política na Uenf: — A luta pela autonomia foi um ícone. Ela logrou um grau de consenso e uma arena de igualdade que perpassou praticamente todos os grupos. Na opinião do professor Carlos Eduardo de Rezende, um dos representantes da Uenf na Comissão Paritária, o que parecia inicialmente um aspecto inovador logo se revelou inoperante: o reitor da Universidade e o presidente da Fundação, que assinariam juntos a ordenação de despesas, em pouco tempo deixaram de compartilhar esta etapa do processo administrativo. O professor Raimundo Braz Filho — que integrou uma comissão de membros da Academia Brasileira de Ciências designada para negociar com o secretário de Ciência e Tecnologia, ao lado dos professores Helion Vargas e Wilmar Dias da Silva — identifica uma desarmonia entre o modelo e sua execução. — O que Darcy imaginou certamente era um modelo avançado, mas não havia uma cultura para sua assimilação. Acabou ficando a Presidência da Fenorte com mais força do que a Reitoria — comenta. O professor Marcos Antônio Pedlowski, que também representou a Universidade na Comissão Paritária Governo-Uenf, vê na luta pela autonomia um “movimento cívico” que deve ser mantido “em perspectiva” ao se avaliarem os passos relativos ao desenvolvimento futuro da Universidade. Em sua visão, ela demonstra que quando se caminha de forma unificada na construção institucional, não existem metas impossíveis de serem realizadas. Antônio Constantino de Campos, que também integrou a Copar como representante da Uenf, considera que a luta pela autonomia significa um caso exemplar em que o ideal se materializa no real. — Todos desejamos, não só na Uenf como em nossa cidade e em nosso país, que a instituição seja respeitada e esteja acima das divergências pontuais e da disputa política. Ao reunir as mais distintas vertentes de pensamento da Uenf e aglutinar o apoio da população, a luta pela autonomia foi um exemplo concreto disso — avalia. Para o reitor da Uenf, Almy Junior, a memória e o espírito da luta pela autonomia devem ser cuidadosamente cultivados pela comunidade universitária. — Assim como a história da criação da Uenf, que envolveu uma intensa luta popular e a contribuição de personalidades marcantes do século XX no Brasil, a conquista da autonomia é um marco que deve ser conhecido por todos nesta Universidade e em seu entorno. Nesta história estão condensados valores fundamentais, como a primazia da instituição pública sobre os governantes eventuais e a força irresistível do movimento pautado por causas públicas.
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