A preservação do Patrimônio Cultural como prática social, tem sido reiteradamente vista a partir da construção das identidades nacionais. A constituição do patrimônio vem, sobretudo desde a Revolução Francesa, servindo de alicerce à construção dos Estados Nacionais, oferecendo sustentação às identidades culturais (mais particularmente à nacional) as quais este Estado se vincula. Como afirma Hall “no mundo moderno, as culturas nacionais em que nascemos se constituem em uma das principais fontes de identidade cultural” (2001:47).
Neste sentido, a noção de Patrimônio permanece, em geral, estritamente vinculada ao aspecto histórico que o Estado pretende exaltar. Os vestígios do passado são como âncora para que possamos recriá-lo dia-após-dia. Os documentos textuais são preservados em Arquivos, os mais variados objetos são expostos em Museus - que podem ser históricos ou temáticos. Nas ruas e praças estão os exemplares arquitetônicos. O que une os variados suportes desta memória é a narrativa do Estado e da identidade do seu povo.
Sob a égide de uma identidade compartilhada plenamente por todos, “as diferenças regionais e étnicas foram gradualmente sendo colocadas, de forma subordinada, sob aquilo que Gellner chama “teto político” do estado-nação, que se tornou, assim, uma fonte poderosa de significados para as identidades culturais modernas (Hall, 2001: 49). A ênfase da narrativa da cultura nacional se prende nas origens, continuidade e tradição, capazes ao mesmo tempo, de oferecer uma unidade ou um teto político ao estado-nação, como de nivelar os diferentes relevos das culturas regionais e locais. Servem também de forma mais velada a assegurar que os bens constitutivos da Nação sejam aqueles vinculados à elite.
No Brasil o órgão governamental que cuida do patrimônio, o IPHAN, carrega em seu nome esta idéia: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Nascido como secretaria durante o governo Vargas - SPHAN - propunha-se exatamente a salvaguardar, fundamentalmente, os bens edificados de caráter histórico que, segundo seus mentores, representassem a Nação.
O termo Patrimônio Cultural tem seu uso mais vulgarizado em período bem mais recente, procurando dar conta de um conjunto maior daquilo que é entendido como patrimônio de um povo ou nação, e tende a incluir parcela dos bens referenciais da cultura popular, para além do acervo da elite dominante. O conceito se amplia para incorporar os bens imateriais e o patrimônio ambiental, entendendo-se este também como um bem cultural. Deslocando o epicentro dos bens patrimoniais históricos, quase sempre representados pelas edificações do clero, do Estado e da elite, passa-se a incluir toda e qualquer manifestação como patrimônio cultural de um povo. Apesar do termo patrimônio cultural pretender incorporar valores etnicamente e socialmente diversificados, as práticas patrimoniais ainda são extremamente elitistas e excludentes.
Preocupados com as questões relativas às Políticas Culturais e de Preservação na região e com o estado de abandono do rico Patrimônio Cultural em Campos dos Goytacazes e região, a Officina de Estudos do Patrimônio Cultural, do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico, do Centro de Ciências do Homem, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Officina/LEEA/CCH/UENF), desenvolve o projeto Patrimônio Cultural do Norte Fluminense: Inventário e Pesquisa.
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HALL, Stuart (2001): A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP& A