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[v. 2, n.3, out-dez /2008]
 
Apresentação
 
Inauguramos este número com Tristeza tem seu fim: sentido e crítica de um estado de espírito (‘stimmung’) na obra de Lima Barreto, artigo de Thomas Straegler, professor de Literatura Brasileira na Universidade de Heidelberg, que nos traz Lima Barreto e, sobretudo, em sua releitura de O triste fim de Policarpo Quaresma, propõe a desconstrução do mito do Brasil Tropical, obrigatoriamente alegre e saltitante. Nota, em contraste, a presença, na atmosfera cultural brasileira do sentimento stimmung, vocábulo que, curiosamente, parece ser banido da língua alemã a título de sua obsolescência que, se verdadeira, revela o afastamento do tempo presente das questões relativas ao que chamamos estado de espírito ou impressão subjetiva. Sua identificação na literatura brasileira do século XIX não apenas indica a propriedade do conceito nas narrativas dos dramas humanos como expõe uma brasilidade marcada também pelo tormento, não apenas pela harmonia. Daí que o Brasil multiracial é, também, racista, por exemplo. Nosso Dom Quixote dos Trópicos, Policarpo, tem um fim trágico e, de modo similar, muitos brasileiros. Reconhecer esta dor pode ser, ao invés de resignação, forma de resistência também cantada, como diz Straegler, nos versos do Tropicalismo:  ... Eu quero seguir vivendo, amor / Eu vou...
 
Sobre a voz da periferia também nos fala Paulo Marcondes Soares, professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE, em Identidade e Modernização como modelos culturais no ‘entre-mundos’. Tendo como interlocutor Alberto Moreiras e seu confronto entre o Paradigma da Identidade e o Paradigma da Modernização, o autor pensa a identidade nacional, não-essencialista, em tempos pós-modernos, a partir de  seus estudos sobre cinema, cultura e ação política da arte em países de língua portuguesa e da América Latina. Propõe-nos o cinema produzido nas regiões periféricas como expressão privilegiada da tensão entre o lugar e o não-lugar da fala pós-colonial no cenário global sem desconsiderar, ao contrário, os condicionantes do desenvolvimento e do subdesenvolvimento dos países nos quais se dá a possibilidade de uma produção fílmica dirigida às revoluções das subjetividades (processos emancipatórios), de um lado, ou, de outro lado, à sua reterritorialização-guetização.
 
Marcos Abraão Ribeiro, mestrando em Sociologia Política da UENF, em O americanismo em Tavares Bastos e a crítica ao liberalismo brasileiro, busca a reação intelectual, a partir da segunda metade do século XIX,  ao diagnóstico de nosso “atraso” como nação – as aspas são do autor. Propõe-nos o diálogo entre Tavares Bastos, Oliveira Vianna e Francisco Campos e revisita o dilema clássico entre americanismo e iberismo. Bastos, o liberal, aposta na reforma do Estado e no expurgo de toda herança centralista e burocrática ibérica. Oliveira Vianna não prescinde do Estado forte e centralizador, ibérico para gerar uma sociedade coesa. Campos, ideólogo do Estado Novo, quer o Estado para tutelar a sociedade civil. Cabe perguntar, porém: qual deles não tem hoje seu projeto fracassado? Tendo os três abraçado a causa da modernização sem maiores suspeitas, não previam que esta pudesse se dar sem um projeto de nação.
 
A nação brasileira e o desenvolvimento também preocupam Hélio Afonso de Aguilar Filho, doutorando em Economia na UFRGS. Em Atraso e desempenho institucional ─ o que a antropologia de Roberto DaMatta tem a dizer sobre o capital social brasileiro, o autor argumenta a favor do novo institucionalismo e de sua ênfase nos estudos das regras formais, informais (cultura) e enforcement para melhor entendimento dos fenômenos econômicos. Converge com DaMatta na apreensão de nossa sociedade como marcadamente relacional, hierarquizada e personalista, características francamente antimodernas. Explica nosso atraso, verificado, por exemplo, no pouco investimento em inovações tecnológicas, pelos gastos excessivos do Poder Público para que se garanta a cooperação em situações em que a participação cívica  teria bastado para o êxito de uma determinada ação ou política. Identifica no baixo capital social o estado de insegurança do brasileiro que é causa e conseqüência de nosso familismo amoral. Parece, em contrapartida, apostar na moralidade do mercado (a sociedade do contrato) para a plena cidadania brasileira. Neste ponto, se distanciará de DaMatta? O jeitinho brasileiro há de ser superado?
 
Em ¿Qué es la “aporofobia”? Un análisis conceptual sobre prejuicios, estereotipos y discriminación hacia los pobres, Marcelo Andrade, doutor em Ciências Humanas pela PUC-Rio e professor de seu Programa de Pós-Graduação em Educação, discute a prevalência dos preconceitos generalizadores sobre os pobres, expressos em atitudes de medo, aversão, deboche e agressividade como formas de reprodução e agravamento das desigualdades sociais em nosso país. Mostra assim como a exclusão dos mais pobres é legitimada cotidianamente pelo senso-comum e, também, pela mídia, a principal formadora da opinião pública. Partindo da concepção de aporofobia, de Adela Cortina, aprofundada por Emilio Martínez, o autor revela os conteúdos ideológicos e emocionais contidos na rejeição do mais pobre pelo menos pobre. A ideologia do mérito alimenta a desigualdade social, segundo o autor. A aporofobia é a reação daquele que recusa, inconscientemente, sua co-responsabilidade pelo quadro de pobreza social. A aporofobia é, nesse sentido, o contrário da cidadania em sua tradução democrática.
 
Neste número, inauguramos ainda a seção de resenha crítica com a publicação daquela feita por Fabrício Monteiro Neves, mestre em Políticas Sociais da UENF e doutorando em Sociologia da UFRGS, do livro Introdução à sociologia do conhecimento, da ciência e do conhecimento científico de Léo Peixoto Rodrigues, publicado pela Editora da Universidade de Passo Fundo. Reitera-se aqui o compromisso da Agenda Social com a divulgação científica.
 
Despeço-me aqui da função de editora da Agenda Social. Revista do programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais que me proporcionou, talvez, um dos mais importantes aprendizados para um/a pesquisador/a: a comunicação com seus pares. Nesta, mantenho minha colaboração. Vida longa à Agenda Social.
 
Adelia Miglievich - Editora-Chefe